sexta-feira, 28 de junho de 2013

HÁBITOS DOS NORDESTINOS (SÉCULO XIX)

Extraído do livro GENEALOGIA SERTANEJA – Capítulo IV

Precisei estudar os hábitos dos nordestinos para entender como era a vida dos meus ancestrais.
É sabido que nos séculos XVIII e XIX no Nordeste, como em todo o Brasil, os hábitos e costumes eram, para nós que vivemos no século XXI, realmente aterrorizantes. Principalmente quando se trata do papel da mulher naquela sociedade, que se resumia tão somente em ficar dentro da casa, sempre ocupada com os serviços domésticos, ou seja, cozinhando, lavando, passando e costurando, cuidando dos filhos (geralmente mais de dez), subordinadas sempre ao pai ou ao marido, e, não raro, submetidas a maus tratos (era comum o marido bater na mulher para “corrigi-la”)..
A mulher tinha na sociedade um papel de submissão e de inferioridade em relação ao homem.
É bom salientar que mal a menina atingia doze anos era considerada uma “moça”, pronta para se casar. Os pais lhes “arrumavam” o marido, e o casamento ocorria quando tinham entre 12 e 16 anos. Se atingissem 20 anos de idade eram consideradas “moças velhas” que estavam no “caritó. As “solteironas” viravam “babás” dos sobrinhos.
Segundo Horácio de Almeida* , “... os casamentos precoces e mais particularmente os casamentos consanguíneos, à força de repetidos, acabaram por constituir norma adotada a preceito pelas gerações passadas. Eram frequentes as uniões consanguíneas, sobretudo de tios com sobrinhas, não só pelo preconceito de branquidade, como pelo receio de dar ingresso a estranhos no seio da família... os casamentos davam certo, talvez mais do que hoje, mas isso se devia acima de tudo a um fator preponderante, que era a submissão da mulher – peça silenciosa do lar – sem noção de personalidade e tampouco sem possibilidades econômicas que lhe assegurassem independência. Reduzida a um ser humano protegido, resignava-se a desempenhar a função de procriar e às vezes até de criar filhos naturais do marido.”  
Fiquei realmente chocada quando descobri que algumas de minhas ancestrais se casaram no início da adolescência, umas com apenas catorze anos de  idade.
Mas, este era o costume da época.
Naquela época (entre os séculos XVII e XIX) ser mulher era difícil. Ser homem era bem mais fácil.
Em uma sociedade machista os homens eram privilegiados: podiam escolher
a profissão (geralmente igual à do pai) e suas futuras esposas. Os homens mandavam nas suas esposas, nos seus filhos e nos seus escravos.
Longe da “Corte” o nordestino do século XIX desconhecia o que se passava no Rio de Janeiro. Falava português arcaico, enriquecido de inúmeros vocábulos indígenas. Estima-se que hoje, temos mais de dez mil palavras oriundas do tupi, entre as quais aquelas já utilizadas naqueles tempos como beiju, tapioca, tipoia, arapuca, pindaíba, peteca, capim, cipó, mingau, toca e outras tantas de origem africana como maribondo, mocotó, mangar e xingar.
No Nordeste, como em todo o Brasil, a influência indígena na geografia é impressionante: rios (Abiaí, Guajú, Potengi e Inhobim), cidades (Itaporanga, Juripiranga, Parnamirim e Sipiúba), nome de serras (Borborema, Jabitacá e Mogiqui), tudo deriva da língua indígena, até os nomes de alguns estados como PARAÍBA, PIAÚI E PERNAMBUCO.
Os nordestinos dormiam em redes. As camas eram raras. Em muitas casas havia cabos de madeira fincados no chão para pendurar as redes, pois as paredes das casas (geralmente de taipa) não aguentavam o peso.
Até a metade do século XIX, não existiam privadas ou banheiros. Nas casas de pessoas com melhores condições financeiras usava-se o penico (também chamado de urinol), que era um recipiente arredondado e fundo (parecendo uma grande xícara), o qual era mantido nos quartos debaixo da cama para ser usado principalmente à noite, quando era perigoso sair de casa e arriscar-se no mato a fim de satisfazer as necessidades fisiológicas.
O penico foi usado até a década de 70 do século XX, em áreas rurais onde não existiam banheiros ou privadas, ou estas eram localizadas no quintal da residência e não em seu interior.
Até a metade do século XIX a maioria das mulheres não usava nenhum tipo de roupa íntima. Calcinhas eram usadas somente por prostitutas. Desconheciam os métodos de concepção e por isso as famílias eram grandes, somando-se a isso a precocidade das mulheres nos casamentos.
Para deixar a roupa mais lisa, usava-se a “goma” de mandioca e água, daí até hoje se usar a expressão “engomar a roupa”.
Antigamente muitos sertanejos possuíam, além de suas moradias regulares (sítios ou fazendas,) as “casas de rua”, que eram ocupadas nas “festas do ano (festa da padroeira, Natal e Semana Santa) e, já no final do século XIX, também eram ocupadas nos dias de feira (esse costume dura até hoje). Em Santa Cruz/RN, aos sábados – dia da feira – até hoje muitos ocupam suas casas na cidade para “fazer a feira” retornando para seus sítios na zona rural no final do domingo.
Até o século XIX, nas ribeiras encontravam-se quase sempre membros de uma mesma família, em média 40 pessoas, sem contar os escravos. As povoações e vilas eram quase sempre formadas do mesmo clã, sendo hábito comum o casamento entre primos, que é explicado em parte pela proximidade dos membros da família.
Pude comprovar que vários membros da minha família se casaram entre si com certa frequência, o que facilitou minha pesquisa, pois reduziu em muito o número de meus ancestrais.

Neste aspecto, é importante salientar que muitos dos cristãos-novos, que se estabeleceram na Paraíba, se dedicaram ao cultivo de tabaco e café. O que mais diferenciava um cristão-novo é que tinham duas ou mais atividades diferentes e mantinham residência em uma vila ou povoação, mas circulavam pela região onde a rede de parentesco era reforçada pelos casamentos entre membros da mesma família, o que me faz acreditar que a origem da família PINTO seja mesmo de algum cristão-novo.

* Horácio de Almeida - vide postagem sobre bibliografia

Um comentário:

Mylena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.