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domingo, 4 de junho de 2017

MANOEL SIMPLÍCIO DA SILVA PINTO

MANOEL SIMPLÍCIO DA SILVA PINTO nasceu em 1871 em Solânea/PB (antiga Moreno).
Era filho de Antonio José Pinto e Joaquina Maria. Neto de Manoel José Pinto e Ana Joaquina.
Se casou,  em 15/11/1898, com Leoncia Francisca do Espírito Santo que era viúva de João Fernandes.
Manoel faleceu aos 66 anos na Aldeia, em 1937, mesmo ano em que foi feito seu inventário. Deixou terras na Aldeia (Solânea) que faziam divisas com as terras de Isidoro Gomes ao nascente, com terras de Luiz Bahia ao poente e aos sul com terras de Pedro Luiz. Nas terras existiam 2 casas de tijolos e telhas e 1 casa de aviamento para fazer farinha. 
Deixou os seguinte filhos:
- João Simplício Pinto
- Antonio Simplício Pinto
- Maria Pinto de Morais, casada com Severino Camello de Morais
- Joana Gomes Pinto, casada com Manoel Galdino Gomes Filho. A filha do casal Alayde, nasceu em 27/02/1931 em Solânea (Olho d'agua seco)
- Josepha Pinto de Senna, casada com José Barbosa de Senna (comerciante na época em Borborema - PB
- Antonia Maria Pinto, falecida, que foi casada com Manoel Camello de Morais (irmão do Severino Camello de Morais, seu cunhado), residente na Baixa Verde no Rio Grande do Norte (acredito que seja no município de Santa Cruz/RN). Os seus filhos eram Juvenal Camello de Morais, na época com 10 anos de idade (nascido em 1927) e José camello de Morais de 7 anos (nascido 1930).
- Luzia Maria Pinto     

sábado, 31 de agosto de 2013

HISTÓRIAS DE MANÉ FRANCO - II

A ONÇA
O amor de Mané Franco por seus animais era imenso, razão pela qual vira e mexe, gostava de exaltar suas qualidades. Mas, às vezes se excedia como na história da cadela que era a melhor perdigueira do mundo.
Dizia Mané Franco que estava pastorando suas vacas quando notou certa agitação e viu, de longe, uma onça.
Pegou na espingarda e atirou, mas só conseguiu afugentar a bicha. Resolveu levar as outras vacas para longe dali. Mas, no meio do caminho, uma das vacas morreu. Mané Franco apeou do cavalo, tirou o couro da vaca e colocou os “quartos” dela no cavalo e prosseguiu em seu caminho. Afinal, pensava que não iria desperdiçar a carne.
Já era noitinha e resolveu apressar o passo, mas o cavalo estava cada vez mais lento e estava pendendo para um lado. Mané Franco notou que a onça tinha abocanhado a carne que estava na garupa do cavalo. Ele enxotou a onça e conseguiu chegar em casa. Chamou Inácia e perguntou pela cachorra de estimação, que além de tudo era a melhor perdigueira.
Inacinha disse que a cadela estava amojada, e que estava perto de dar a luz. Mas, Mané Franco disse que não tinha problema, pois queria acabar com a onça ainda aquela noite e que precisava da cadela para guiar o resto da matilha.
Armado com sua espingarda Mané Franco reuniu a cachorrada, inclusive a cadela, que era a líder, montou no seu cavalo e se embrenhou na caatinga seguindo o rastro da onça.
A cadela seguia na frente guiando os outros cachorros. Late daqui, fareja de lá, Mané Franco observou que já havia nascido um cachorrinho, que nem bem nascera já era igualzinho à mãe, latia e farejava o rastro da onça.
Quando Mané Franco chegou perto da onça já haviam nascido nove cachorrinhos, que juntos com a mãe cercavam a onça, deixando-a acuada. Chegando mais perto Mané Franco viu que o último cachorrinho que havia nascido era o mais bravo, pois estava no cangote da onça, grudado, grudado igual a um carrapato.
Mané Franco matou a onça e trouxe a cadela e seus filhotes para casa e vivia repetindo: “Não vendo essa cadela e esses filhotes por dinheiro nenhum”.

O CAVALO
Claro que Mané Franco era apegado a seu cavalo - companheiro de muitas andanças e sobre ele havia uma história.
Contava que vendia queijos na fazenda, mas que um dos seus fregueses comprava fiado e nunca pagava. Depois de acumular uma dívida grande, esse homem sumiu.
Passado um ano, eis que surge na fazenda o mesmo homem arrastando um cavalo pelo cabresto. Era um cavalo magro, quase pele e osso que mal se aguentava em pé.
Ao chegar se desculpou com Mané Franco de não ter vindo antes para pagar a dívida, mas que queria resolver a questão dando o cavalo que conduzia como pagamento.
Mané Franco olhou o cavalo, olhou o homem e pensou: ”se não aceito o cavalo, ele vai querer pegar mais queijos e nunca vai me pagar”. Resolveu então ficar com o cavalo, que não tinha mais jeito. Então, Mané Franco decidiu que não iria gastar ração com o bicho.
Como não tinha coragem de matá-lo, levou o cavalo até um terreno onde só tinha xiquexique e era infestado de cascavel.
Pensava Mané Franco que deixando o cavalo ali, ele iria morrer: ou de sede,
de fome ou picado pelas cobras.
No dia seguinte, foi até o terreno e para sua surpresa, o cavalo estava vivo.
Mané Franco voltou para casa na certeza que do dia seguinte o cavalo não passava.
Voltou no segundo dia, mas de longe avistou o cavalo. Chegando mais perto Mané Franco achou que o cavalo estava mais vistoso, parecia até que estava com a barriga cheia. Mas, cheia de quê se ali só tinha xiquexique e cobra?
Pensou logo que melhor era deixar o bicho ali até o dia seguinte.
E assim fez. No terceiro dia ao chegar ao terreno, o cavalo trotava de um lado para o outro, todo garboso. Relinchava e tinha a barriga bem cheia.
Mané Franco pensou que, se o cavalo tinha resistido três dias ali naquele local,
merecia uma segunda chance. Nem precisou arrastar o bicho. Montou no cavalo e seguiu rumo a sua casa. Ao passar por meio de uma moita o cavalo ficou todo agitado.
De repente, abocanhou a moita e quando Mané franco viu, na boca do cavalo havia uma cascavel que ele engoliu logo em seguida.

Toda vez que alguém chegava a sua fazenda, Mané Franco mostrava o cavalo e dizia: “É o melhor cavalo do mundo, não vendo por dinheiro nenhum. Além de quase nunca beber água, acabou com todas as cascavéis daqui”.

sábado, 17 de agosto de 2013

"HISTÓRIAS" DE MANÉ FRANCO

Sem dúvida, muitos dos membros da minha família já escutaram “as histórias de MANÉ FRANCO”. Muitos pensavam que era figura lendária, que só existia no imaginário popular. Cresceram, como eu, ouvindo suas histórias sem saber ao certo qual sua ligação com tal personagem.
E, transmitiram aos filhos as histórias, geração após geração. Mas afinal quem foi MANÉ FRANCO?
Nascido por volta de 1820/1824, MANOEL FRANCO DE OLIVEIRA, era casado com Ignácia Maria da Conceição (da família LIMA), e, teve muitos filhos, dentre os quais são conhecidos : MANOEL FERNADES DE LIMA, IZABEL FRANCISCA DE LIMA, JOSÉ FRANCO DE OLIVEIRA, JOÃO FRANCO DE OLIVEIRA, JOANNA OLIVEIRA, JOAQUINA EUSTAQUILINA DE OLIVEIRA e ANTONIO RAIMUNDO DE OLIVEIRA FRANCO.
Faleceu em Araruna/PB por volta de 1905.
Nos seus últimos anos de vida, morava em um sítio, nos arredores de Araruna, criando vacas leiteiras e fabricando queijos.
Dedicado ao trabalho, carinhoso com a família, seria um pessoa normal, que passaria despercebida não fosse um pequeno detalhe: Manoel Franco gostava de contar histórias... e, que histórias!
Em uma época e numa região onde o acesso aos meios de comunicação eram escassos, Manoel, conhecido como Mané Franco, fez sua própria história.
Era um notável contador de histórias, ou “causos” e onde sempre era a personagem principal.
Parecia de certa forma, com outro “personagem”, criação do excelente humorista cearense Chyco Anisio, o famoso PANTALEÃO. Mas, ao contrário da ficção, onde a TERTA, esposa de Pantaleão, sempre confirmava suas histórias,. Inácia, ou Inacinha, esposa de Mané Franco, fazia o contrário.
O certo é que mesmo sem o “apoio” de Inacinha, as histórias de Mané Franco ficaram conhecidas em toda a região, ultrapassando a fronteira da Paraíba por
meio de seus descendentes que ainda hoje contam as mesmas histórias.

Vejamos então algumas dessas histórias.

O MELHOR PAPAGAIO DO MUNDO
Naquela época, Mané Franco tinha uma boiada e dia após dia, bem de manhãzinha, conduzia as reses do curral até o pasto que ficava distante a quase duas léguas. Um dia, Mané Franco, montado em seu cavalo, avistou de longe um ninho de papagaio que tinha caído de uma árvore. Chegou perto e constatou que no ninho só havia um ovo.
Apeou do cavalo e se aproximou, observando que não havia nenhuma ave por perto, o que era mau sinal, porque certamente aquele ovo iria se perder.
Então, pegou o ovo e o colocou em uma bolsa que estava acoplada à sela do cavalo, e quando chegasse a sua casa o colocaria para chocar num ninho de galinha.
Sol a pino, lá se foi Mané Franco conduzindo a boiada quando, de repente, uma rês se apartou e em desembalada carreira seguiu rumo diverso, obrigando Mané Franco a persegui-la. Naquela correria, entre solavancos, o ovo, que estava na sela do cavalo que montava caiu no chão. Mané Franco até teve vontade de parar para buscá-lo, mas preferiu perseguir a rês até, finalmente, laçá-la e trazê-la de volta para junto das demais.
Qual não foi sua surpresa, quando no meio do caminho avistou no chão uma coisa verde se movimentando no meio da caatinga. Chegou mais perto e viu que era um papagaio que acabara de nascer do ovo que havia caído no chão,
O papagaio, bem novinho, falava: “Pegou o boi Mané Franco? Pegou o boi Mané Franco?”
Ora, Mané Franco que não era bobo nem nada, pegou o bichinho e o levou para casa, onde permaneceu por muitos e muitos anos.

 O PAPAGAIO-PROFESSOR
Mané Franco além de contar a história acima, contava outra, sobre o mesmo papagaio, para demonstrar seu carinho pelo bicho. Esta era sempre contada após a história anterior.
Quando as pessoas iam visitá-lo, ele mostrava o papagaio, que sempre ficava em um galho de árvore perto do alpendre da casa. Dizia Mané Franco que desde que trouxe o papagaio para sua casa, aquele era o lugar predileto da ave.
Naquela época, não existiam escolas. Era costume, então, contratar uma professora que ia até uma casa e de uma vez ensinava a todas as crianças, geralmente irmãos e primos, a ler e escrever. O método era a “cartilha”.
Com Mané Franco não foi diferente. Contratou uma professora para ensinar seus filhos. As aulas eram ministradas no alpendre, onde a professora dizia aos seus alunos: “B com A, Beabá, B com E, Beebé, B com I, Beíbi” e assim por diante.
O papagaio ali, no galho da árvore, prestava atenção a tudo.
Certo dia, o papagaio desapareceu, Mané Franco nem ficou preocupado, pois ele estava acostumado a desaparecer por uns dias e depois voltar. Mas, daquela vez foi diferente, o papagaio não voltou.
Mané Franco ficou triste já que tinha se afeiçoado ao bichinho.
Passou um tempo e sobreveio uma seca horrível. Nenhum pé de árvore tinha resistido. A vegetação ficou cinza. Mané Franco, sempre montado em seu cavalo, estava indo para a cidade quando avistou, de longe, uma árvore bem grande que estava verdinha, verdinha.
Ficou abismado e resolveu chegar perto para ver que árvore era aquela que havia resistido à seca. Quando se aproximou da árvore começou a escutar: “B com A, Beabá, B com E, beebê, Bê com I Beibi”. E aí pode ver que na verdade a árvore estava cheinha de papagaios e no meio deles quem estava? O papagaio dele.
Mané Franco foi logo perguntando: “Que você tá fazendo aí meu loro?” Ao que o papagaio respondeu: “tô ensinando essa cambada de burros a ler, mas não se preocupe que logo, logo vou voltar”.

E, não é que tempos depois o papagaio voltou! E, a todos que chegavam a sua casa Mané Franco contava as duas histórias e mostrava o papagaio, sempre empoleirado no mesmo galho da árvore que ficava perto do alpendre e dizia: “Tá vendo, é por isso que não vendo ele por dinheiro nenhum do mundo”.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

HISTÓRIAS DE TRANCOSO III - PORTO DE CABEDELO


Extraída do livro GENEALOGIA SERTANEJA - CAPÍTULO XI

Em pleno sertão, havia um casal muito pobre, que morava em uma casinha muito simples. Por mais que o homem trabalhasse sol após sol, nada conseguia para o seu sustento e o da esposa. O único bem que possuíam era uma cabra, que ficava amarrada debaixo de um pé de umbu.
Certo dia, o homem sonhou com uma alma penada que lhe dizia: sua fortuna está no Porto de Cabedelo. O homem acordou assustado e contou o sonho para a mulher que disse: “Larga de ser besta que alma alguma vem te trazer fortuna”.
O sonho se repetiu várias vezes, sempre a alma dizendo: “SUA FORTUNA ESTÁ NO PORTO DE CABEDELO”.
Até que certo dia o homem, farto da miséria que passava, resolveu seguir o conselho da alma e ir para Cabedelo (Paraíba). Não falou nada para a mulher, pois afinal ela não acreditava na alma. Pensou que voltaria de Cabedelo rico e assim provaria à mulher que seu sonho tinha se tornado verdade.
Em Cabedelo, encontrou logo emprego no porto como carregador. Mas, apesar de estar empregado, ganhando dinheiro, passou o tempo e não conseguiu juntar fortuna. Desolado, estava um dia no porto quando chegou outro homem que lhe perguntou a razão de tanta tristeza.

Ao que o homem respondeu: “Olhe, eu morava no sertão com minha mulher, passávamos fome, éramos muito pobres, daí comecei a sonhar com uma alma que me dizia: SUA FORTUNA ESTÁ NO PORTO DE CABEDELO. Tanto sonhei, que resolvi arriscar e vim para cá, pois acreditei no sonho, mas aqui nada consegui de fortuna até agora”. Após ouvir a história, o outro homem disse: “você é muito ingênuo, vê lá se
alguém pode acreditar em sonho. Eu mesmo, tem mais de ano que sonho que tenho que ir lá para o sertão procurar uma casinha bem pobre, onde tem uma cabra que fica amarrada o dia todo debaixo de um umbuzeiro. A alma me diz para tirar a cabra, cavar que acharei uma botija de ouro. Imagina se eu acredito”.
A cada palavra do outro, o homem parecia que estava vendo sua casa. Despediu- se então e voltou para sua casa no sertão. Foi até o umbuzeiro, tirou a cabra e cavou encontrando a botija de ouro e se tornando rico, para surpresa da mulher que dizia que seus sonhos eram besteira.
Moral da história: às vezes é preciso ir muito longe para se descobrir o verdadeiro tesouro que está bem perto da gente.


* Esta história parece “adaptada” pelo meu avô de alguma história de trancoso. O início da construção do Porto de Cabedelo se deu em 1908 e atraiu muitos trabalhadores. A obra só foi concluída em 1917, mas oficialmente o seu término se deu em 1935.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

HISTÓRIAS DE TRANCOSO II - O QUE É DO HOMEM BICHO NÃO COME


Extraído do Livro Genealogia Sertaneja - CAPÍTULO XI

O QUE É DO HOMEM O BICHO NÃO COME
Havia um casal, cuja mulher que era muito trabalhadora e o marido preguiçoso passava seus dias se balançando em uma rede. A mulher já não aguentandoa situação, pois trabalhava dia e noite para sustentar a casa e os filhos. Mandava o marido trabalhar, ao que ele falava: “o que é do homem, bicho não come”.
No reino onde morava, o rei tinha três escravos, os quais lhe roubaram o anel de brilhantes.
O rei não sabia quem tinha roubado o anel, mas resolveu oferecer uma recompensa muito grande, em ouro e pedras preciosas, para quem informasse quem tinha roubado seu anel.
Várias pessoas foram adivinhar quem teria sido o criminoso, mas não conseguiram identificá-lo e nem localizar o anel. Com raiva, o rei mandava matar a todos.
Até que o homem preguiçoso disse para a esposa que iria adivinhar onde estava o anel. A esposa não queria que ele fosse, pois tinha certeza que o rei iria mandar matá-lo, já que ele não sabia onde estava o anel.
Na verdade, ele não sabia mesmo, só iria dizer que sabia, e só diria o local após três dias, durante os quais o rei deveria dar-lhe tudo do bom e do melhor (a melhor comida, a melhor roupa o melhor aposento do castelo e tudo mais que pedisse).
Chegando ao castelo, começou a por em prática seu plano: passar os três melhores dias de sua existência antes da morte.
E assim ocorreu. No primeiro dia, à noite, quando um dos escravos do rei veio lhe trazer uma ceia, ele disse em voz alta: DOS TRÊS JÁ VI UM!
Em verdade, disse isso se referindo aos três dias, mas o escravo pensou que estava se referindo a ele.
No dia seguinte, depois de comer todas as melhores comidas e se divertir com todo o luxo do castelo, foi para seu quarto à noite, onde encontrou outro dos três escravos do rei que viera lhe trazer a ceia.
Como no dia anterior, disse: DOS TRÊS JÁ VI DOIS!
O escravo ficou horrorizado, saiu correndo e foi ter com seus companheiros e ficou acertado que o terceiro escravo serviria a ceia no dia seguinte.
Ao final do terceiro dia, o último escravo foi ter com ele. Os outros dois ficaram na porta do quarto.
Então o homem disse: DOS TRÊS JÁ VI TRÊS!
Os escravos apavorados se ajoelharam aos seus pés e pediram-lhe pelo amor de Deus que não contasse ao rei, entregando o anel ao homem. Como estavam muito nervosos, o anel caiu ao chão e um peru, que estava próximo, imediatamente comeu o anel.
O homem pegou o peru e foi ter com o rei dizendo que o anel estava dentro do peru.
O rei, que já tinha perdido o anel que gostava, disse que não mataria o peru de estimação para tirar o anel sem antes testar mesmo seu poder de adivinhação.
Então, pegou uma porca e colocou-a dentro de um quarto e perguntou-lhe se ele era capaz de adivinhar o que tinha dentro do quarto. O homem disse: “É agora que a porca vai torcer o rabo”. O rei, surpreso com a resposta, mas não satisfeito ainda, pegou um pote e o encheu todo de fezes, lacrou direito e colocou perfume.Mostrou o pote ao homem e perguntou se ele era capaz de adivinhar o que tinha dentro. Apavorado, ele falou: “Bem que minha mulher me dizia que minha vida iria terminar em titica”.
O rei, satisfeito, matou o peru, tirou o anel e deu ao homem muitas moedas de ouro e muitas joias, ficando ele rico.
O homem voltou para casa e entregou o dinheiro à mulher, voltou para a sua rede onde vivia falando: “O que é do homem, o bicho não come”.

terça-feira, 12 de março de 2013

HISTÓRIAS DE TRANCOSO - O COURO DO PIOLHO

Extraído do Livro Genealogia Sertaneja - CAPÍTULO XI

Essas “histórias” eu ouvi meu pai contar muitas vezes, e, como fazem parte da tradição oral do interior potiguar, eu não poderia deixar de mencioná-las neste livro.
Na verdade, no século XVI, Gonçalo Fernandes Trancoso fez sucesso em Portugal com seu livro “contos de proveito e exemplo” onde reuniu histórias que o povo contava sobre casos extraordinários e situações impossíveis de ocorrer.
No Brasil, as “Histórias de Trancoso” estão associadas a relatos fantasiosos e mentirosos. Não são simples lendas ou fábulas, pois não trazem especificamente ensinamentos morais e éticos, mas vêm acompanhadas de um mote e recheadas de “ditos populares”, como “antes que case, olhe o que fazes” ou “quem mal fala,
mal ouve”.
Esta primeira história (COURO DO PIOLHO) eu ouvi muito de meu pai, que a repetia várias vezes, tanto para os filhos como para os netos. Sempre gostei muito dela e sei até hoje de “cor e salteado”. Gostaria que meus netos, no futuro, dela tivessem conhecimento e soubessem que há mais de 150 anos ela é contada
na nossa família. Vem de Mané Franco, que a transmitiu para os filhos e netos, entre os quais meu avô Luiz Severiano da Costa, que a contava para os filhos, e meu pai Raimundo para os filhos e netos. De alguma forma, penso que registrando essas histórias neste livro, faço uma justa homenagem àqueles que na época em que não existia televisão, cinemas ou computadores, vivendo sem livros ou qualquer outro tipo de diversão ou entretenimento,se divertiam contando tais histórias.

 – COURO DO PIOLHO
"Meu pai veja minha mãe,
Que eu com Pinta matei sete,
De sete escolhi o melhor,
Atirei no que vi, matei o que não vi,
com lenha santa assei e comi,
bebi água sem ser da terra nem do mar,
se o pau é bom, a raiz é melhor,
tirei um bom dentro do melhor
e vi um morto carregando sete vivos
."

Há muito tempo atrás, existia um reino cuja princesa era uma solteirona, que queria se casar. Seu pai, o rei, divulgou para todo o reino que o súdito que quisesse casar com sua filha, herdaria todos os seus tesouros,
porém, para ganhar a mãoda linda princesa e herdar o tesouro, deveriam acertar duas respostas. Se errassem seriam mortos.
Estava assim o rei agradando a filha, embora, no íntimo, não quisesse nem entregá-la tampouco entregar sua fortuna. Assim, escolheu duas perguntas bem difíceis.
Pegou um piolho, bem grande, que tirou de sua cabeça e tirou seu couro e colocou-o dentro de uma caixa.
Esta era a primeira pergunta: o candidato teria que saber de qual bicho havia sido tirado o couro.
Os candidatos faziam fila. E o rei perguntava: “De que bicho é esse couro?”
Os candidatos respondiam: “De bode, boi, coelho, cachorro, etc.”.
O rei sorria a cada resposta dos reprovados e os mandava matar.
Uma viúva, mãe de três filhos mandou o primeiro, que foi e não voltou. Mandou o segundo que também não voltou.    O caçula quis ir, mas a viúva, que já tinha perdido dois filhos não queria que ele fosse. Mas ele insistiu deixando a mãe contrariada, com muita raiva, o que fez com que ela colocasse veneno dentro de um pão, para que ele comesse na viagem e morresse.
Ele partiu, seguido de Pinta, sua cadelinha. No caminho, desconfiado, resolveu dar o pão preparado por sua mãe para Pinta, que morreu na hora.
Como estava com fome, resolveu comer a carne da cadela. Fez fogo e já estava assando a carne quando chegaram sete caçadores, cada qual com uma espingarda nas costas.
Um dos caçadores disse que tinham apenas farinha, e como ele tinha carne, fariam uma farofa para comerem junto. Assim foi feito, só que o rapaz, desconfiado de que Pita tinha morrido pelo veneno e que sua carne estaria também envenenada, deixou que os caçadores comessem primeiro. Dito e feito, todos os
sete morreram.
Como ele precisava de uma espingarda, escolheu a melhor entre as sete e armado com ela seguiu em direção ao castelo do rei. No meio do caminho, com fome, avistou um pássaro, atirou, mas errou.
No entanto, outro pássaro que estava perto, assustou-se com o tiro e morreu.
Ele pegou o pássaro para comer a carne. Procurou lenha para fazer o fogo e não encontrou. Na beira da estrada avistou uma cruz, que alguém botou para marcar o local de um sepultamento. Arrancou a cruz e fez fogo. No fogo assou o pássaro e comeu.
Seguiu em frente, mas sentiu muita sede, não havia nenhum rio, córrego ou qualquer fonte de água por perto. Mas, havia um cavalo.
Montou no cavalo e o fez correr até suar muito, bebendo o suor. A noite armou uma rede em uma árvore, para dormir, quando chegou um fantasma e disse que no pé da árvore havia uma botija cheia de moeda de ouro. De manhã, cavou e achou a botija.
Partiu carregando o ouro quando avistou um touro comendo a lavoura de arroz. Percebeu que o touro havia saltado a cerca do roçado, daí consertou a cerca e botou o touro para fora. Seguiu viagem, passou por um rio que estava com um volume muito grande de água, e viu um boi boiando com sete urubus em cima.
Seguiu viagem e encontrou os sete fantasmas dos caçadores. Um deles estava com o ouvido no chão. Ele perguntou ao fantasma porque estava fazendo aquilo.
Ele disse que estava escutando missa em Roma.
Ele pediu para aquele espírito acompanhá-lo. Seguiram junto, quando se aproximaram do castelo do rei, pediu para o fantasma ouvir o que o rei estava conversandocom a princesa.
A princesa dizia ao pai: “Olha papai, lá vem outro amarelinho adivinhar o couro do piolho”.
Ora, o fantasma escutou tudo e falou para ele que ficou sabendo de qual bicho era o couro.
Chegando ao castelo, o rei foi logo perguntando: “De que bicho é esse couro?” Ele respondeu: “Piolho”. Todos ficaram surpresos.
O rei então disse: “Está correto, mas falta ainda a adivinhação, que nem eu e nem meus sábios poderemos acertar”.
Nessa hora ele contou a própria história em forma de adivinhação:
Ele disse:
“Meu pai veja minha mãe,
Que eu com Pinta matei sete,
De sete escolhi o melhor,
Atirei no que vi, matei o que não vi,
com lenha santa assei e comi,
bebi água sem ser da terra do mar,
se o pau é bom, a raiz é melhor,
tirei um bom dentro do melhor
e vi um morto carregando sete vivos
”.
Todos ficaram pensando durante dias e ninguém acertou.
Então o rei teve que cumprir a promessa e entregou a princesa e todos seus
tesouros ao rapaz.